Notícias do Norte do Espírito Santo 12/07/2026 · Conteúdo atualizado pela redação
Política

Catadoras de mangaba resistem à pressão imobiliária em área tradicional de Aracaju

Comunidade extrativista do sul da capital sergipana tenta proteger território, renda de famílias e manejo tradicional do fruto

Catadoras de mangaba resistem à pressão imobiliária em área tradicional de Aracaju
Catadoras de mangaba resistem à pressão imobiliária em área tradicional de Aracaju · Crédito: Agência Brasil

A mangaba, fruto associado à cultura e ao ambiente de Sergipe, tornou-se também um símbolo de resistência para comunidades extrativistas de Aracaju. Na região sul da capital, onde se concentra a expansão urbana, catadoras e catadores vivem um conflito cotidiano para manter áreas de mangabeiras preservadas diante da pressão do mercado imobiliário. A disputa envolve território, renda, memória comunitária e a permanência de um modo de vida sustentado pela coleta e pelo manejo do fruto.

As áreas remanescentes de mangabeiras ficam em uma parte da cidade cercada pelo crescimento urbano. Para as mulheres que dependem da chamada cata, a preservação não é apenas uma pauta ambiental: é a base da autonomia econômica e social de dezenas de famílias. A presidente da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper, Maria Eliene Santos, descreve a sensação de viver em meio ao avanço do concreto e, ao mesmo tempo, carregar a responsabilidade de proteger um patrimônio coletivo.

Território tradicional no meio da expansão urbana

A associação é a principal organização comunitária e política das famílias extrativistas da capital sergipana. Seu trabalho envolve orientação da produção, valorização dos saberes tradicionais, preservação das mangabeiras e diálogo com o poder público. Em 2023, a atuação do grupo foi reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, com o primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade.

A premiação destinou R$ 45 mil à associação. O recurso foi aplicado em oficinas e estudos voltados ao fortalecimento do beneficiamento da mangaba e do turismo de base comunitária, com apoio de instituições como a Universidade Federal de Sergipe e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Para as famílias, essas ações ajudam a agregar valor ao fruto e a ampliar alternativas de renda sem romper com o uso sustentável do território.

O espaço ocupado pelas catadoras em Aracaju reúne duas áreas protegidas vizinhas, separadas por uma avenida. De um lado está a Reserva Extrativista Mangabeiras Missionário Uilson de Sá; do outro, uma área da União concedida à comunidade por meio de um Termo de Autorização de Uso Sustentável. Embora tenham modelos distintos de gestão, as famílias reconhecem os dois espaços como um único território cultural tradicional.

Nessas áreas, famílias em sua maioria negras mantêm o extrativismo da mangaba há mais de 80 anos. A permanência depende da conservação das árvores, do acesso ao território e da manutenção de práticas repassadas entre gerações. Por isso, a pressão urbana é vista pelas catadoras como uma ameaça direta ao sustento e à organização comunitária.

Plano de manejo busca orientar proteção da reserva

No início de junho, durante a 5ª Festa da Colheita, a Reserva Extrativista Uilson de Sá recebeu o lançamento do Plano de Manejo Popular. O documento foi construído coletivamente pelas famílias catadoras, com apoio da associação, e pretende reunir a memória histórica da comunidade, estimular a conservação da reserva, elaborar uma cartografia ecológica e fortalecer a gestão participativa do território.

Segundo Leandro Sacramento Santos, conhecido como Pel, da Associação Raízes, que assessora comunidades tradicionais em Sergipe, o plano foi uma forma de reorganizar a comunidade em torno da defesa do território. A preocupação relatada por ele é que regras externas sejam apresentadas sem considerar a realidade local e a forma como as famílias usam e protegem a área.

Entre os pontos de tensão está a discussão sobre o futuro da reserva e a possibilidade de transformá-la em um parque urbano aberto. As catadoras defendem que qualquer decisão leve em conta o caráter extrativista, a história das famílias e a necessidade de garantir acesso e manejo sustentável. Para o cidadão, o caso mostra como a proteção ambiental também envolve segurança territorial, trabalho, alimentação, cultura e participação popular nas decisões sobre áreas públicas.

Tema sensível: confira linguagem, direito de resposta e dados oficiais antes de repercutir.

Fonte: Agência Brasil — https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-07/catadoras-de-mangaba-resistem-especulacao-imobiliaria-em-aracaju

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Redação

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