Notícias do Norte do Espírito Santo 24/07/2026 · Conteúdo atualizado pela redação
Cidades

Cenipa aponta falhas de manutenção e cultura de não relatar problemas em avião da Voepass

Investigação sobre queda que matou 62 pessoas em Vinhedo identificou alertas de gelo, procedimentos não adotados e fragilidades na empresa

Pilotos da Voepass não relatavam falhas nas aeronaves, diz Cenipa
Pilotos da Voepass não relatavam falhas nas aeronaves, diz Cenipa · Crédito: Agência Brasil - Geral

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos concluiu que a queda da aeronave PS-VPB, da Voepass, em 2024, teve relação com uma combinação de falhas técnicas, problemas de manutenção e uma cultura interna de não registrar anormalidades detectadas durante voos. O resultado da investigação foi divulgado nesta quinta-feira (23) e reforça que o acidente não foi associado a um único evento isolado, mas a uma sequência de fatores que comprometeram a segurança operacional.

O turboélice ATR, fabricado pela empresa francesa ATR e operado pela Voepass, caiu em 9 de agosto de 2024 em Vinhedo, no interior de São Paulo, município vizinho a Campinas. A aeronave havia decolado de Cascavel, no Paraná, com destino a Guarulhos, na Grande São Paulo. Ao todo, 62 pessoas morreram, entre elas quatro tripulantes.

Na época do acidente, um representante da companhia informou que o avião havia passado por manutenção de rotina antes da viagem e que não apresentava problema técnico. A apuração do Cenipa, porém, apontou fragilidades em atividades de manutenção da empresa. Mecânicos ouvidos durante a investigação relataram que componentes com falha eram retirados de uma aeronave e instalados em outra, que depois era liberada para voar.

Alertas de gelo e registros ausentes

Um dos pontos centrais do relatório envolve o sistema de degelo, responsável por retirar gelo acumulado em partes da aeronave. O Cenipa analisou voos anteriores feitos pelo mesmo avião, com tripulações diferentes, em rotas entre cidades paulistas. Em todos eles, houve detecção de gelo e falha no sistema de remoção, mas esses problemas não foram registrados no diário de bordo.

Segundo o investigador encarregado do caso, tenente-coronel Fróes, a repetição do comportamento por diferentes tripulações indicou a normalização de desvios de procedimento. A análise foi ampliada e mostrou que outros profissionais também deixavam de reportar falhas semelhantes, o que, para o Cenipa, revelou um padrão organizacional dentro da companhia.

O chefe do Cenipa, brigadeiro do ar Avellar, afirmou que a cultura organizacional teve peso expressivo no acidente. A investigação identificou 19 fatores contribuintes e destacou que pilotos e copilotos, inclusive os envolvidos no voo que caiu, recebiam alertas, desligavam avisos do sistema e percebiam falhas sem registrar formalmente as ocorrências.

O que ocorreu durante o voo

No trajeto entre Cascavel e Guarulhos, a aeronave emitiu repetidos alertas de acúmulo de gelo. O sistema também indicou oito vezes que a velocidade estava diminuindo em razão do peso do gelo na fuselagem. O degelo chegou a ser acionado, mas apresentou falha e foi desligado pelos pilotos. Mesmo diante dessas condições, não houve alteração no plano de voo.

De acordo com o Cenipa, o procedimento adequado seria reiniciar o sistema. Caso uma segunda falha ocorresse, o equipamento deveria ser desligado e a aeronave conduzida a níveis mais baixos de voo, onde as temperaturas são menos severas. Esse caminho, porém, não foi seguido. A investigação também apontou que o avião não deveria ter decolado naquele momento por causa de um problema nos limpadores de para-brisa, que restringia a operação a situações sem chuva e sem previsão de chuva por uma hora antes da decolagem e uma hora após o pouso.

Para passageiros de todo o país, incluindo leitores do Norte do Espírito Santo que utilizam voos nacionais em conexões por grandes aeroportos, o caso evidencia a importância dos registros técnicos e da fiscalização de rotinas de manutenção. O relatório mostra que alertas emitidos por sistemas de segurança e anotações no diário de bordo não são formalidades: eles servem para orientar decisões sobre continuidade do voo, necessidade de reparos e limites de operação.

Como parte da investigação, o Cenipa analisou 15 mil voos da Voepass para identificar padrões. Desse total, 1.674 apresentaram algum tipo de alerta de degradação de performance. Os dados reforçaram a avaliação de que as falhas observadas no acidente estavam inseridas em um contexto mais amplo de procedimentos não reportados e de manutenção insuficiente, fatores que, segundo o órgão, contribuíram para a tragédia.

Tema sensível: confira linguagem, direito de resposta e dados oficiais antes de repercutir.

Fonte: Agência Brasil - Geral — https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-07/pilotos-da-voepass-nao-relatavam-falhas-nas-aeronaves-diz-cenipa

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Redação

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