Morreu nesta quinta-feira (16), em São Paulo, aos 100 anos, a demógrafa Elza Salvatori Berquó, uma das principais referências brasileiras nos estudos populacionais. Professora, cientista e matemática de formação inicial, ela dedicou décadas à análise de dados demográficos e censitários para interpretar as mudanças sociais do país, especialmente entre a segunda metade do século 20 e o início dos anos 2000.
A trajetória de Elza teve forte ligação com a saúde pública. Seus estudos ajudaram a ampliar a compreensão sobre temas como crescimento populacional, urbanização, mortalidade infantil, fecundidade e direitos reprodutivos. Ela defendia que a população tivesse acesso consciente e informado a métodos contraceptivos, ao debate sobre aborto e às decisões relacionadas ao próprio corpo, sempre com base em informação qualificada.
Formação e atuação acadêmica
Nascida em Guaxupé, em Minas Gerais, Elza estudou Matemática na Universidade Católica de Campinas. Em 1949, concluiu mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) e, no ano seguinte, fez especialização em Bioestatística na Columbia University, nos Estados Unidos. Essa combinação entre matemática, estatística e saúde marcou a base de sua produção científica.
Em 1965, ganhou destaque ao analisar a evolução da população paulista a partir dos censos de 1940 e 1950. Na Faculdade de Saúde Pública da USP, consolidou uma atuação voltada à leitura rigorosa dos dados populacionais. Em 1968, durante a ditadura, foi aposentada compulsoriamente. No ano seguinte, participou da criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), ao lado de nomes como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti.
O Cebrap se tornou um espaço importante de produção intelectual em um período de restrições políticas. A participação de Elza nesse processo reforçou uma característica reconhecida por colegas: a capacidade de unir pesquisa acadêmica, leitura crítica da realidade brasileira e compromisso com direitos humanos. Para Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, Elza reuniu rigor científico e engajamento público, combinação que marcou sua atuação.
Instituições, políticas públicas e legado
Elza Berquó também foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp), que desde 2014 leva seu nome. A instituição concentrou, em outubro do ano passado, as homenagens pelo centenário da pesquisadora. Para a atual coordenadora do núcleo, Gláucia Marcondes, a morte representa a perda de uma cientista inspiradora, mas também um momento de reconhecer as instituições que ela ajudou a criar e as gerações que formou.
Em 1995, Elza fundou e presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), órgão do governo federal voltado a apoiar decisões estratégicas na área. O atual presidente da comissão, Richarlls Martins, destacou que a demógrafa acreditava no país, defendia a democracia e via nas estatísticas um instrumento para orientar políticas públicas e ampliar direitos. O acadêmico Eduardo Rios Neto, que trabalhou com ela na Associação Brasileira de Estudos Populacionais, também a apontou como figura essencial na criação de instituições relevantes para a demografia nacional.
Para o leitor, inclusive no Norte do Espírito Santo, o legado de Elza aparece em temas do cotidiano. Estudos populacionais ajudam governos a planejar serviços de saúde, acompanhar mudanças nas famílias, observar desigualdades, avaliar a mortalidade infantil e organizar respostas públicas conforme o perfil da população. Em regiões em transformação, como os municípios capixabas fora dos grandes centros, decisões baseadas em dados são fundamentais para que políticas cheguem com mais precisão a quem precisa.
A morte de Elza Berquó encerra uma trajetória centenária, mas mantém vivo um campo de conhecimento indispensável para o Brasil. Ao tratar números como expressão de vidas, territórios e direitos, sua obra ajudou a aproximar a demografia da saúde pública, da cidadania e do planejamento social. Seu legado permanece nas universidades, nos centros de pesquisa e nas políticas que dependem de evidências para enfrentar os desafios da população brasileira.
Tema sensível: confira linguagem, direito de resposta e dados oficiais antes de repercutir.
Fonte: Agência Brasil — https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-07/morre-demografa-elza-berquo-referencia-em-estudos-populacionais